Há 11 anos, no dia 26 de novembro de 2005, o Grêmio protagoniza um feito histórico e retornava para o seu lugar: a primeira divisão do futebol brasileiro. Na partida que ficou conhecida como a "Batalha dos Aflitos', o tricolor, na última rodada do Brasileirão Série B daquele ano, venceu o Naútico pelo placar de 1×0, após ter quatro jogadores expulsos.
A rodada derradeira do quadrangular final da Série B de 2005 chegou sem nenhum clube ter garantido seu acesso e com todos eles tendo chances de classificação. No Arruda, o Santa Cruz, que era o segundo colocado com 7 pontos, recebia a Portuguesa, que estava na 4ª e última posição com 5, mas ainda tinha chance de ser um dos dois a garantirem vaga na Série A de 2006.
No outro confronto, no Estádio dos Aflitos, o Náutico, 3º com 6 pontos, recebia o até então líder Grêmio, com 9. Com a situação do momento, o Tricolor Gaúcho necessitava apenas não sofrer gols para subir, mas a rodada passou longe de ser apenas mais uma para o Imortal.
Já antes mesmo de qualquer pessoa imaginar o desfecho do que se tornaria a "Batalha dos Aflitos", o clima no estádio era completamente desfavorável para os gaúchos, que eram hostilizados pela torcida. No vestiário, local que os jogadores deveriam ter o mínimo de tranquilidade para se preparar, o clima era totalmente reverso. Onde era para se ter ar puro, sentia-se o forte cheiro de paredes recém pintadas; no lugar da serenidade, uma forte sirene antes da equipe entrar em campo; no lugar do aquecimento no gramado, os jogadores e dirigentes tricolores encontraram portões cadeados que impossibilitavam a passagem. Os zagueiros Domingos e Pereira forçavam contra a grade, mas não eram capazes de ajudar o time a acessar o campo.
Após os transtornos antes do árbitro apitar, o jogo começou com nervosismo dos dois lados, muitas reclamações e entradas duras de ambos os lados. Na bola, o Náutico era quem estava melhor, mas mesmo assim não conseguia transpor a defesa gaúcha. Na beira do gramado, o técnico Mano Menezes gesticulava e tentava fazer com que seus jogadores não entrassem em provocações, mas não obtinha êxito.
Aos 32 minutos, após cruzamento muito forte da ponta direita, o zagueiro Domingos perdeu o tempo de bola e derrubou Paulo Matos. Pênalti. Em meio à muitas reclamações, o lateral Patrício se jogava no chão insinuando uma simulação, mas nada que pudesse mudar a decisão de Djalma Beltrami foi feito. A penalidade estava marcada e estava ali a chance do Grêmio se complicar de vez na competição. Antes da batida, o Santa Cruz empatava seu jogo com a Portuguesa, depois de sair perdendo, e encostava no tricolor na classificação.
Ao contrário do esperado, o atacante Kuki, artilheiro do Náutico, não foi para a cobrança, deixando a responsabilidade para Bruno Carvalho. Na finalização, o lateral-direto do Timbu escorregou em um buraco, cavado por Marcel na marca do pênalti, e chutou fora do alcance de Galatto, mas acertou a trave direita. Alívio momentâneo para os gremistas espalhados por Recife, Porto Alegre e pelo mundo.
Do pênalti perdido até o intervalo, a equipe da casa mandou na partida e criou algumas oportunidades, parando ou no goleiro gremista, ou em chutes errados.
O segundo tempo chegou e com ele faltavam apenas 45 minutos para o Grêmio não sofrer um gol e voltar para a Série A. Tarefa fácil? Nenhum pouco.
O Náutico seguiu em cima e tentando marcar seu gol e, quando parecia não haver mais maneiras dos pernambucanos balançarem as redes, ocorreram os lances e, as consequências destes, que colocaram o confronto na história do futebol.
Cheio de atacantes em campo, o Náutico ficou com um jogador a mais quando Escalona, que já tinha amarelo, recebeu seu segundo cartão por cortar um passe com o braço.
Aos 35 minutos, depois de uma finalização da entrada da área, o árbitro carioca sinalizou toque no braço do volante Nunes e marcou outro pênalti para o Náutico. Pronto. Estava armada a confusão que deixou a partida paralisada por 20 minutos.
Indignados, os gremistas realizaram todos os tipos possíveis de reclamações com Djalma. A partir daí, começaram a ‘pipocar’ cartões vermelhos. O primero foi para Patrício, que peitou o árbitro logo após a sinalização. Pouco depois, antes mesmo da entrada do policiamento em campo para defender o juiz, Nunes foi expulso.
Quando Beltrami, com a bola na mão, pensou que tudo estava resolvido e foi posicionar a bola para a cobrança do pênalti, Domingos deu um tapa na ‘pelota’ e foi mais um a ir para a rua.
Sem ninguém mais podendo ser expulso, se não a partida acabaria ali com vitória para o rival, o Grêmio tinha apenas sete em campo, mas milhões que acreditavam na força e bravura daqueles poucos que restaram para defender a história de um clube centenário.
Depois de uma longa demora, o lateral-esquerdo Ademar ajeitou com carinho a bola e o gramado e partiu para o que poderia ser o gol do acesso do Timbu e da permanência do Grêmio na Série B, visto que o Santa Cruz venceu seu confronto em casa por 2×1 e assumiu momentaneamente a primeira colocação, esperando apenas o final do jogo dos Aflitos para comemorar o título.
Da cobrança da penalidade até o momento de glória do Grêmio foram exatos 71 segundos. Setenta e um segundos que marcaram o dia 26 de Novembro de 2005 na história do clube.
Novamente as atenções estavam voltadas para Kuki, mas o atacante não assumiu a responsabilidade. Ademar correu, bateu e o jovem Galatto, de 22 anos, fez a defesa mais enigmática de sua vida, que lhe rendeu o apelido de “Homem de Gelo”. Na sequência, escanteio cobrado para a área gaúcha, bom trabalho defensivo dos poucos que ainda estavam em campo e a bola no pé de outro garoto: Anderson, de 17 anos.
Com o campo inteiro para carregar a bola e prender o jogo, ‘Andershow’ se mandou para o ataque e foi derrubado por Batata. Falta e segundo cartão amarelo para o defensor. Aos 63′ de jogo na segunda etapa, após cobrança rápida realizada por Sandro Goiano, o camisa 17 do Grêmio invadiu a área correndo em direção ao lado direto do campo e deu um toque sutil para vencer Rodolpho e marcar o gol do acesso e do titulo.
Como descreveu o narrador da Rádio Gaúcha, Pedro Ernesto Denardin, ícone do rádio no Rio Grande do Sul, o Grêmio protagonizava ali algo inacreditável. Náutico 0x1 Grêmio. No confronto que ficou eternizado com a ‘Batalha dos Aflitos’.
O rivais usam as derrotas da equipe (a própria final da Libertadores 2007, por exemplo) para dizer que o "Imortal morreu".